1º Capítulo de Alice e Leonardo - Ingrid Callado

17:21

Alice se mudou para Recife para recomeçar sua vida. Uma cidade nova onde ninguém a conhece. Um lugar onde não podem encontrá-la.

Leonardo não consegue tirar da cabeça a garota que viu no parque. E quando a vida a coloca em seu caminho mais algumas vezes, ele decide que precisa conhecê-la.

Leo acaba se tornando o porto seguro de Alice, mas quando a amizade começa a se transformar em outro sentimento e os obstáculos começam a surgir, eles terão que tomar decisões e essa amizade ficará por um fio.

Quando amigos se apaixonam, o resultado é mesmo o tão sonhado final feliz?

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1º Capítulo

Alice

Aeroportos são sempre iguais, não importa o estado ou país em que você está. São sempre as mesmas despedidas, os mesmos encontros e reencontros. Sorrisos e lágrimas.

Um homem alto, de cabelos curtos, usando um terno, passa correndo por mim, larga a mala e abraça uma mulher de vestido florido. Os dois não param de chorar.

Um suspiro escapa e sorrindo para a cena continuo caminhando.

Vejo uma mulher sentada no chão abraçando uma criança. Um casal de idosos abraçando uma garota que aparenta ter uns dezesseis anos.

Todos ao meu redor estão chorando e rindo ao lado das pessoas que estão reencontrando.

Não me encaixo em nada citado acima. Estou chegando em uma cidade desconhecida, mas não tem ninguém para me receber.

Pego minha mala, a etiqueta branca com o desenho de uma flor e meu nome escrito na caligrafia impecável de minha mãe fazem um nó surgir em minha garganta. Engulo a saudade e arrasto minha mala para a saída.

Você sabe que isso é para o seu próprio bem, Alice. Penso.

Saio do aeroporto e respiro o ar de Recife. Entro em um táxi e entrego ao motorista o papel com meu novo endereço.

Meu novo endereço. É estranho ter um novo endereço. Morei na mesma casa nos últimos vinte anos. Olhando pela janela do táxi, admiro o meu novo lar.

As árvores passando devagar pela janela, os prédios altos e baixos, os restaurantes, os carros. As pessoas conversando enquanto caminham nas calçadas ou esperam um ônibus na parada.

Vejo dois cachorrinhos brincando com uma corda e uma risada escapa pelos meus lábios.

-Primeira vez em Recife? – O motorista pergunta com sotaque. Sempre adorei os sotaques do nordeste.

-Eu nasci e cresci em São Paulo. – Dou de ombros. – Tudo é novo para mim aqui.

Ele lança um olhar rápido pelo retrovisor depois faz uma curva.

-Você vai gostar da mudança. – Diz com uma voz calma e tranquila. – Morei em São Paulo por seis meses. Mas era tudo muito corrido. – Ele para em um sinal vermelho e se vira para me olhar nos olhos. Seu cabelo está começando a ficar grisalho e algumas rugas se formam nos cantos de seus olhos. Acho que ele sorri muito. – Aqui é bem mais tranquilo. –Seus olhos castanhos são serenos e carregam uma experiência de vida que estou longe de entender.

-Difícil vai ser lidar com a saudade dos meus pais. – Olho para minhas mãos. As unhas estavam pintadas de azul, mas agora estão descascadas e roídas.

-Nunca é fácil se afastar da família. – Ele se vira e acelera quando o sinal fica verde. – Estou trabalhando o dobro para pagar um curso de inglês que a minha filha quer fazer no exterior.

-Você tem filhos? – Fico feliz com a mudança de assunto. Mais um minuto e eu começaria a chorar.

-Quatro. – Ele começa a falar dos seus filhos. O orgulho que sente deles é quase palpável. Quando fala que o filho mais velho conseguiu uma bolsa integral em uma faculdade de medicina, um suspiro lhe escapa e seus olhos ficam marejados.

Conversamos mais um pouco sobre a cidade e outros assuntos aleatórios. Quando finalmente paramos na frente do prédio grande, coloco a cabeça para fora da janela e olho para todos os andares. Ele é azul e branco, as varandas são de vidro e consigo ouvir algumas crianças rindo alto na área de lazer.

Meus pais me ajudaram a escolher. Mas nosso viagem para visitar o apartamento foi tão rápida que sequer conto como visita a cidade que agora vou chamar de lar.

Saio do táxi e o motorista já está tirando minha mala do carro. Ele a leva até a portaria.

-Se precisar de uma corrida... – Ele me entrega um cartão branco com seu nome, Geraldo Carvalho, e um número de celular. – Ou qualquer outra coisa. É só ligar. A mudança pode ser difícil no começo. – Ele me dá um sorriso amigável e volta para o táxi.

Vejo o carro branco sumir em uma curva. Respiro fundo e dou meu primeiro passo para minha nova vida.

***

-Sim, mãe, eu já fui ao mercado e comprei comida suficiente para dois meses. – Reviro os olhos e me levanto da cama. Com o celular preso entre o rosto e o ombro começo a arrumar minha cama. Então, me lembro que minha mãe não vai ver se está arrumada ou não e paro na mesma hora.

-Já arrumou a casa? Não pense que só por que vai morar sozinha vou deixar você transformar a casa em um lixão. – Um sorriso se forma em meu rosto. É claro que ela ia adivinhar. Nunca fui muito organizada.

-Ainda não tive tempo de arrumar a casa. Amanhã vou sair para comprar o que está faltando e prometo que arrumo a casa. – Falo olhando para a cama desarrumada e que não tenho a intenção de tocar até a hora de ir dormir. Coloco o telefone em cima da cama e troco o pijama por um vestido.

-...Vai me ligar amanhã? Você prometeu que ia ligar todos os dias. – Escuto o barulho de talheres e pratos e já consigo visualizá-la na cozinha. Preparando o almoço de domingo, com o cabelo preso em um coque bagunçado enquanto canta e dança alguma música dos anos oitenta.

-Claro, mãe. Amanhã eu ligo, prometo. Mas agora eu realmente preciso desligar. Passei a tarde dormindo. Estou precisando de um banho e comida! – Me contorcendo entre as caixas empilhadas por todos os lados chego a cozinha.

-Você já jantou? Alice, você não sabe cozinhar, como vai sobreviver? Eu sabia que isso não era uma boa ideia. Vou te buscar assim que puder. Onde eu estava com a cabeça quando concordei com isso? Você é muito nova... – Minha mãe começa a falar rápido. 

Consigo ouvir sua respiração acelerada, e se fechar os olhos, consigo até vê-la fazer gestos exasperados. Um hábito herdado do lado de meu avô, que é italiano.

-Mãe... – Suspiro, e me apoio na pia da cozinha com a mão livre. Minha vinda para Recife foi motivo de muitas discussões. – Mãe, me escuta. Eu vou conseguir. São só alguns anos. Vou terminar a faculdade e prometo que procuro um emprego por aí. E quanto a comida, não se preocupe, a seção congelada do mercado estava cheia de opções. – Com um sorriso me afasto da pia e abro a geladeira. Está quase vazia, mas as caixas de pizza, nuggets, e outras comidas que fariam o rosto de minha mãe se contorcer em uma careta me olham de volta. Quando coloco a pizza de calabresa em cima do balcão meu estomago ronca.

-Comida congelada? Alice... – Não consigo segurar a risada que ecoa pela casa. Tenho certeza que minha mãe está fazendo uma careta nesse exato momento.

-Prometo aprender a cozinhar. Mas por enquanto... – Dou de ombros. Tiro a pizza da caixa, depois removo o plástico e coloco-a no microondas. Quando ela começa a gira fico hipnotizada. A promessa de um alimento nada saudável é sedutora.

-Não sei, minha filha... – Se pudesse, aposto meu primogênito que ela embarcaria no primeiro avião só para ter certeza de que eu comeria uma salada de frutas ou qualquer outra coisa saudável.

-Mãe, eu amo você. Prometo ligar todos os dias e prometo aprender a cozinhar. Mas, por favor, apoie a minha decisão. É o meu sonho, e essa foi a única faculdade de jornalismo que eu passei... – Começo a sentir um aperto no peito. Odeio mentir para os meus pais. Eles me criaram com total liberdade e confiança. Mas, eles não entenderiam. Ninguém entenderia.

-Eu sei, mas... -Ouço-a suspirar, o som ambiente muda e sei que ela foi para o quarto ou para o banheiro. – Ainda olho para você e vejo uma garotinha. Nenhuma mãe aceita fácil o fato de sua menininha se mudar para uma cidade distante sozinha.

-Eu vou ficar bem. – Bocejo, e o microondas apita. O canto da sereia para uma pessoa faminta. Quando o abro o cheiro quente bate em meu rosto e suspiro de satisfação e expectativa.

-Claro que vai. Mas, qualquer coisa, me ligue e eu vou lhe buscar. – Ouço uma porta se abrir e ser fechada e o som da televisão ligada no canal de esportes. Lembro do meu pai sentado em sua poltrona, uma garrafa de cerveja na mão, o controle e um saco de salgadinho. Uma lágrima solitária e teimosa escorre pelo meu rosto.

-Te amo, mãe. – Digo com a voz engasgada. – Fala para o papai que também o amo.

-Também te amamos, filha. Se cuide. – Ela desliga e o silêncio se espalha pelo apartamento.

Coloco a pizza em um prato e coloco-o na mesa, depois mudo de ideia e vou para o quarto.

Me sento na cama, olhando para a janela. Enquanto dou uma mordida atrás da outra, admiro a vista. Os prédios, com as luzes acesas, ouço os carros buzinando na rua, o céu tem poucas estrelas, mas a lua cheia está se erguendo no céu para mais um espetáculo noturno.

***

Acordo cedo no dia seguinte. O sol brilha no céu azul, as poucas nuvens decoram o horizonte. Mesmo morando em uma parte movimentada da cidade, está silencioso.

O dia está perfeito para ficar na praia. Mas, tenho um apartamento cheio de caixas para arrumar. Ainda deitada na cama, viro a cabeça e olho para as caixas que estão no quarto. Se levantar um pouco a cabeça consigo ver as caixas que estão no corredor e um arrepio de preguiça percorre meu corpo quando lembro das que estão na sala e na cozinha.

Não faço a menor ideia de por onde começar. Sala, quarto ou cozinha? Decido começar pelo quarto, uma vez que ainda estou nele. Abro as malas e arrumo o guarda-roupa. Forro a cama, penduro meu mural na parede e coloco minhas fotos. Passo um pano na mesinha ao lado da cama e coloco um porta retrato com uma foto de meus pais, um abajur vermelho que ganhei quando tinha treze anos e ainda tem um adesivo da cinderela que colei em uma tarde de tédio. Coloco o livro que estou lendo no momento ao lado da foto e sorrio para meu trabalho feito.

Depois encolho os ombros e faço uma careta ao lembrar que falta muito para o apartamento ficar igual a essa mesinha.

Vou para a cozinha e começo a organizá-la. Abro as caixas e guardo os pratos, talheres, panelas e tudo que ganhei dos meus parentes na festa de despedida que fizeram para mim na semana passada.

 Quando termino de arrumar a casa o sol já está se pondo. Tomo um banho demorado. Meus braços doem e minhas pernas imploram por descanso. Com uma roupa limpa, me jogo na cama e ligo para minha mãe.

-Alô? Alice? Aconteceu alguma coisa, minha filha? – Um sorriso se forma em meu rosto ao ouvir a voz dela. Pego o porta retrato e fico olhando para o rosto da minha mãe.

-Não, mãe. Só liguei para avisar que o apartamento está arrumado e que eu estou bem. – Lembro da sensação de segurança que sempre senti em seu abraço e percebo como uma coisa tão simples pode fazer tanta falta.

-E você está comendo nos horários certos? – Sempre a mãe protetora e mandona...

-Sim. – Não. Na verdade só comi um sanduiche. Penso

-Ótimo. Alguma novidade? – Sua voz ainda soa preocupada, mas admiro e agradeço o esforço que ela está fazendo para aceitar minha mudança.

-Não. Passei o dia arrumando a casa. Ainda não saí, mas amanhã vou sair e tirar muitas fotos para mandar para a senhora. – Os olhos azuis e sorridentes de minha mãe me fitam através da foto.

-Tudo bem. Te amo, filha. – Sua voz é calma e controlada. Sei que ela está segurando o choro.

-Também te amo, mãe. – Desligo e sinto as lágrimas lavarem meu rosto.

Olho a foto dos meus pais. O cabelo castanho e os olhos azuis que herdei de minha mãe. Todos dizem que me pareço muito com ela quando era mais nova. Olho para o cabelo preto e olhos castanho claro do meu pai. Minha avó diz que herdei a personalidade forte dele.

Adormeço abraçando a foto e lembrando de todos os momentos felizes que meus pais já me proporcionaram.

***

Pesquisei na internet os pontos turísticos de Recife e o mais perto de onde moro é o Parque Dona Lindu.

Então, aqui estou eu. Nos meus fones de ouvido, Cazuza canta alto sobre segredos de liquidificador. Observo as crianças brincando nos balanços e correndo, grupos de adolescentes conversando ou tocando violão. Famílias fazendo piqueniques e pessoas tirando fotos.

Enquanto mando uma mensagem para meu pai, uma bola me acerta em cheio e derruba meu celular no chão.

-Desculpa, desculpa. – Um rapaz alto, de cabelo escuro e olhos castanhos quase verdes, vem correndo em minha direção. Ele está usando uma camisa branca, calça jeans e all star preto. Seu cabelo está bagunçado e quando ele para na minha frente sua respiração está ofegante. – Desculpa, moça. – Diz novamente. O sotaque da cidade fica perfeito na voz dele. Quando ele sorri meu coração dá um salto.

-Não, tudo bem. – Tento olhar em seus olhos, mas quando ele me olha de volta desvio o olhar para uma menina que está fazendo escândalo por causa de um brinquedo que o pai não quer comprar. O homem a pega no braço e fala algo em seu ouvido. A menina fica em silêncio automaticamente.

-Desculpa, mesmo. Meu irmãozinho está aprendendo a jogar bola, ele é novinho... – Ele aponta para um menino pequeno, deve ter uns seis ou sete anos. O cabelo escuro e os olhos são iguais aos dele. Mas a versão mirim tem bochechas fofas que me deixam com vontade de apertá-las e quando e ele sorri para mim, vejo que está sem os dois dentes da frente. Sorrio de volta para ele.

-Tudo bem. – Volto minha atenção para a versão mais velha. Ele passa a mão no cabelo e olha para algo atrás de mim.

-Aqui. – Ele se abaixa e pega meu celular, depois que me entrega sorri sem graça e coloca as mãos nos bolsos da frente da calça. – Desculpa mesmo.

-Você já se desculpou. – Guardo o celular na bolsa e olho para ele.

-Tudo bem, então... Eu vou voltar para o meu irmão. – Ele sorri novamente, se vira e caminha em direção a versão mirim. O garoto fala algo que não consigo entender por que na mesma hora duas meninas passam gritando perto de mim.

-Ei. – Chamo-o. Ele se vira.

-Você esqueceu a bola. - Pego a bola e jogo... no rosto dele.

Parabéns, Alice. Penso com sarcasmo.

-Ai, meu Deus. – Corro em sua direção. Me xingo mentalmente de vários nomes ofensivos enquanto ele passa a mão na testa. Quando recolhe a mão vejo um pequeno círculo vermelho. Meus olhos se abrem um pouco mais. Droga. – Desculpa, desculpa, desculpa. Eu juro que não fiz de propósito. Sou péssima em esporte, eu devia ter entregue a bola, não jogado. Meu Deus, desculpa. – Continuo falando da minha falta de habilidade em qualquer coisa que exija coordenação motora.

Então ele começa ri.

-Você já se desculpou. – Ele diz rindo, enquanto massageia a testa novamente. Seus olhos me analisam dos cabelos castanhos presos apenas com uma fita para que não caiam nos olhos, passando pela minha camisa surrada com estampa dos Mamonas assassinas, meus jeans rasgado e para nos meus all star vermelho que uso desde o ensino médio e me recuso a jogar fora. Mesmo com todas as tentativas de minha mãe de se livrar deles.

-Acho melhor eu ir embora antes que eu quebre seu braço ou seu pescoço. – Dou um passo para trás, sentindo meu rosto queimar de vergonha. Uma rápida análise no local me mostra que algumas garotas – até mesmo as bem mais novas que eu – estão muito bem vestidas se comparadas a mim.

Começo a me afastar, mas ele me chama.

-Oi? – Me viro rápido e o vento joga meu cabelo em meu rosto. Isso Alice, hoje você está se superando.

-Eu perguntei o seu nome. – Ele sorri quando tira a fita e começo a prender o cabelo para trás mas o vento insiste em despenteá-lo. Faço um coque desarrumado mesmo e, desistindo de vez da minha integridade, coloco a fita no bolso da calça.

-Alice. – Sorrio. O irmão dele joga pipoca nas pernas e costas dele, mas ele ignora.

-Leonardo. –Ele dá um passo a frente. -  Então, por que você não me dá o número do seu celular? – Ele coloca as mãos nos bolsos de novo e olha nos meus olhos. Conheço essa cara... Ele está fazendo cara de cachorrinho, me olhando com esses olhos lindos.

-Ah, entendi. Então, você costuma jogar uma bola em toda garota que chama para sair? – Meu tom de brincadeira se perde na tensão que percorre meu corpo. Me xingo novamente quando vejo a expressão dele mudar de timidez para constrangimento e parando em choque.

-O quê? Não. Eu só... – Seus olhos se abrem e ele não termina a frase.

-Prazer em conhecê-lo Leonardo.

Leonardo

Ela se vira e começa a caminhar. Não acredito que pedi o número dela. Onde eu estava com a cabeça?

-Leo! - Gabriel me chama, ele já esvaziou um saco inteiro de pipoca em mim. Seu rosto está começando a ficar vermelho por causa do esforço e do sol.

-Aqui.- Jogo a bola para ele. - Tenta não acertar mais ninguém.

Ele sorri e começa a correr atrás da bola. Muitas famílias passam por nós, tem alguns casais se beijando na parte mais afastada. Crianças gritam por todo lado. Pais reclamam com as que não querem ir para casa. Outros tentam convencer os filhos a pararem um pouco para lanchar ou beber água. Seria um dia normal com meu irmão. Até eu vê-la.

Procuro Alice enquanto brinco com meu irmão, mas não a encontro. Quando fica tarde e percebo que ela já deve ter ido para casa, recolho a bola e a mochila e voltamos para casa.

***
-Ficou muito boa, cara.- Alisson diz quando termino de tocar a música que compus. Coloco o violão ao lado da cama. - Mas e a letra? Conseguiu escrever alguma coisa dessa vez?

Ele se senta na cadeira que fica na mesa do meu computador. Começa a mexer nos papéis e bagunça tudo. Seu cabelo loiro está molhado, e sei onde ele esteve. Não precisei perguntar, ele adora se gabar. Sempre que me vê ou me liga a primeira coisa que faz é detalhar tudo que fez com a pobre garota da semana. Já tive muita pena delas, mas se elas não conseguem ver de cara que ele é um canalha, quem sou eu para me preocupar?  Então, agora eu apenas escuto e reviro os olhos.

-Não. - Me jogo na cama e olho para o teto. Lembro de Alice sorrindo. Ela ficou linda até quando o vento bagunçou seu cabelo. Tento me repreender, eu nunca mais vou vê-la. Mas, meu cérebro insiste em trazê-la de volta. - Nunca consegui escrever uma música, você sabe. – Tento me concentrar na conversa com Alisson e empurrar os olhos azuis para longe dos meus pensamentos.

-Entendo. Mas você devia tentar. O que é isso? - Ele pega uma folha no chão. Vejo os olhos verdes se abrirem e então percebo o que ele está lendo.

-Não é nada... - Levanto rápido da cama e tento puxar o papel da mão dele, mas Alisson se levanta e o segura no alto. Nunca senti tanta raiva de ser mais baixo que ele.

-Isso é uma letra? – Um brilho de diversão se acende em seus olhos. Ele olha para o papel que continua no alto. Depois olha para mim e ri. Sinto vontade de socar seus dentes brancos e retos até acabar com o serviço que sei que ele pagou caro.

-É só um rabisco. Besteira. – Dou de ombros e tento fingir indiferença. Mas é impossível mentir para alguém que te conhece desde que vocês usavam fraldas.

- Eu te vi/ Sentada no parque/ E pensei estar sonhando - Ele me olha. A diversão se transforma aos poucos em algo que não consigo identificar. - Leo, isso não é um rabisco. É uma letra. E das boas...

            Me sento na cama e começo a puxar um fio solto na colcha. Fico esperando Alisson começar a rir, ele sempre achou graça do meu jeito. Mas a verdade é que não consigo tratar as mulheres como ele. Talvez seja culpa dos livros que leio compulsivamente, outro hábito que ele desdenha. Só que a minha visão de um relacionamento é baseado no dos meus pais. Eles se amam até hoje como se estivessem no começo do namoro. Parece romance de livro. Quero algo assim também.

-Seria uma letra se eu conseguisse terminar. – Falo para desviar meus pensamentos de relacionamentos, e como sou péssimo nesse quesito.

-Quem é? –Ele se senta na cadeira novamente e coloca a folha na mesa. Alisson cruza os braços e me olha com uma expressão séria.

-O quê? – Pergunto tentando fingir indiferença. Também sou péssimo nisso.

-A garota. - Ele sorri e espero alguma piada. Ela não vem.- Eu te conheço desde que me lembro, você nunca escreveu nada, e agora tem o começo de uma letra. Quem é a garota?

Pelo visto ele não vai desistir. E quando ele coloca algo na cabeça não para até conseguir. É só parar qualquer garota em um raio de cinco quilômetros que ela confirmará.

-Não sei. – Dou de ombros e mais uma vez os olhos azuis invadem meus pensamentos.

-Como assim não sabe? –Ele franze a testa e me observa com atenção. Respiro fundo e olho para o teto, para meu violão, para os papéis amassados espalhados pelo chão, para o quadro da Marvel que ganhei quando tinha dez anos e até hoje não saiu da minha parede. Foco minha atenção no olhar de raiva do Hulk.

Alisson limpa a garganta alto o suficiente para me provar que não vai embora sem uma resposta.

-É uma garota que vi no Lindu. – Falo depois de alguns segundos. Possíveis piadas que ele possa fazer em seguida surgem em minha mente e antes que ele tenha a chance de usá-las, acrescento: - E antes que pergunte, não a conheço e provavelmente não vou vê-la de novo.

Um olhar rápido para Alisson mostra que ele está se esforçando para segurar uma risada. A vontade de socá-lo surge em minha mente novamente. Volto minha atenção para o quadro da Marvel. Fico falando o nome de cada herói para me acalmar. Um hábito estranho e muito maduro, eu sei.

-Que pena. Quando você finalmente encontra sua musa... Ela some. - Ele joga uma bolinha de papel na minha testa e tiro os olhos do Colossus por tempo suficiente para jogar um travesseiro nele. Depois olho para a Viúva negra e continuo repetindo os nomes na minha cabeça. Thor, Wolverine, Cable...

Alisson parece perceber que não quero mais falar sobre isso. Então, começa a narrar seu último encontro. Reviro os olhos e quando lembro o nome do último personagem que está no quadro me deito na cama. Olhando para o teto ouço a voz distante de Alisson.
Alguns minutos depois o celular dele toca. Após uma rápida troca de palavras ele se levanta. Faz um aceno rápido com a mão e vai embora.

Quando o silêncio se espalha aos poucos pelo quarto pego o violão e começo a brincar com os acordes. Não faço a menor ideia de quem Alice é. Mas preciso encontrá-la de novo.

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